"Oh filho isto já não é como antes..." desabafa uma das passageiras habituais do 28, queixando-se que antes, as enchentes do eléctrico eram por épocas e que agora "é um martírio para conseguir entrar no eléctrico o ano inteiro". Na sua rotina diária o 28 faz parte do trajecto entre casa e o trabalho e por norma apanha o carro sempre à mesma hora e esta semana calhou-me a mim transportá-la porque estou na semana em que faço aquele horário todos os dias. Trocamos uns dedos de conversa porque não dá para mais. Já há mais gente para entrar na paragem seguinte e como ela própria fez questão de gritar... "chega atrás que há mais gente para entrar!"Passageiro a passageiro o eléctrico lá vai enchendo paragem após paragem até que minutos depois chega ao terminal. Com muito custo os turistas lá saem do eléctrico não sem antes fazer um rol de perguntas como "e ahora como hace para volver?" ou "pour retorné au martim moniz?..."
Mas tal como a passageira habitual nos diz também eu posso dizer que já nada é como antes, nem o turismo. Esse mesmo, o tal que é muito benéfico para a nossa economia, o tal que enche os carros como se não houvesse amanhã, o tal que quer fazer turismo no serviço público, o tal que quer ser ele a fazer as regras, ou a viajar muito por pouco, resumindo... "o turismo pé descalço" que também ele está pior no pós-pandemia.
Ontem foi um desses dias difíceis. Prestes a iniciar mais uma viagem rumo ao Martim Moniz, abri as portas e fui acolhendo os passageiros que iam solicitando o bilhete para a viagem que se iniciava, entre os quais entra um casal francês que parecia dono e senhor do eléctrico 28. Entram, dirigem-se ao banco e sentam-se. Solicito que validem o título de transporte. Revoltado, o senhor levanta-se com um cartão "viva viagem" e valida duas vezes.
Eu: Desculpe mas não é permitido viajarem duas pessoas com o mesmo título de transporte.
Turista: É, é! Eu comprei dois bilhetes, paguei 28 euros e vou-me transportar assim.
Eu: Lamento, mas se comprou dois bilhetes, tem de ter dois cartões, um para cada um dos passageiros. Assim como está, tem de pagar uma tarifa de bordo para se transportar de forma legar neste transporte público.
Turista: Eu paguei 2 dias para duas pessoas, não tenho culpa que a máquina do metro só me tenha dado um cartão.
Eu: Quem não tem culpa sou eu. Se pagou dois cartões e a máquina só deu um, devia ter resolvido no imediato na estação respectiva. Aqui tem de pagar para viajar. E escusa de gritar e ser indelicado porque não o estou a tratar mal e estou a ser cordial.
Turista já aos gritos e esmurrando a cortina de protecção do condutor: Você é mas é um ladrão que quer cobrar 3€ quando eu já paguei. Não pago e não saio! Vou seguir viagem.
Eu: Então, vamos ter de chamar a Polícia para resolver esta situação e interferir na vida dos restantes passageiros?
Turista: Pois bem, então chame!
E assim foi... Ao fim de 15 anos ao serviço desta companhia, tive de solicitar a ajuda da PSP, porque nem falando francês para lhe explicar tudo, ele deixava de me injuriar e gritar dizendo que lhe queria cobrar indevidamente um titulo de transporte. Não é pelos 3€ mas é! Não é pelo bilhete, mas pelo respeito e por tudo o que daí advém.
É pelo respeito de quem está aos comandos, é pelo respeito para com os restantes passageiros, é pelo saber estar, é pelo que poderá acontecer em caso de acidente, não tendo titulo de transporte válido. Valeu então a ajuda dos elementos da 4.ª Divisão da PSP, que os convidaram a sair do eléctrico após uma hora de imobilização do carro no terminal, sugerindo que fossem ao metro resolver a situação. O turista alegou que em França era permitido viajar com o mesmo cartão duas pessoas e o Agente da PSP, lembrou: "Mas o senhor neste momento está em Portugal e as regras são diferentes. Se o condutor o alertou que não é válido e é o trabalho dele, o senhor deve acatar e respeitar, assim como devia ter-se informado antes, sobre as regras do transporte público em Portugal."
Em resumo, dois turistas vêm de férias, querem ser eles a fazer as regras, interferem com a vida de outros turistas e locais que usam um transporte público, porque alegam ter comprado dois bilhetes e que a máquina só lhes deu um [a PSP verificou depois que o número de série do cartão viva viagem não correspondia aos dois impressos no recibo] e como se não bastasse tudo isso e todos os equívocos e erros, já dizia o outro... a culpa é da Carris.
E assim vão as alucinantes viagens com o turismo que visita Portugal.