«Só um bocadinho que vem ai uma senhora a correr...», dizem do lado de fora logo na paragem seguinte á rendição que deu início a mais um dia de trabalho. As portas mantiveram-se abertas e a senhora lá vinha a correr, mas passou o autocarro e só terminou a sua corrida quando entrou no carro que estava uns metros á frente mal estacionado. É aquilo a que se chama tempo perdido. Mas nem só no serviço acontecem situações que nos dão que pensar. Ainda antes de pegar ao serviço, deslocava-me eu para Alcântara no 714 quando na paragem de Santos uma senhora - armada em chica esperta -, decide entrar pela porta de trás do autocarro depois de ver que haviam muitos turistas para entrar.Aquela falta de respeito e a imagem que fazia transparecer de um país cada vez menos organizado, revoltou-me internamente e forçou-me, a que delicadamente e até porque ali estava junto á porta de saída, lhe chamasse a atenção, que "a porta da entrada é a da frente minha senhora. Até porque não há nesta entrada validadores". «Não me interessa! Eu tenho passe e está ali uma fila muito grande...», dizia-me como se fosse dona e senhora de tudo e de todos e como se fosse eu que estivesse errado. Ainda lhe tentei explicar que as filas são para se respeitar e que o autocarro não fugia da paragem sem todos os passageiros terem entrado, mas foi pior a emenda que o soneto. «Até já vi várias pessoas a entrar por trás quando está muito cheio e nem vou lá passar o passe.. que se lixe», dizia-me já com um ar de revoltada e com o rosto completamente "pintado" de rosa por lhe ter alertado apenas que aquela era uma porta de saída.
Começava em grande o meu dia de trabalho!
O certo é que se a manhã até passou rápido, já a tarde começava de forma a que fazia prever que custasse a passar. Mal rendo o colega na P.Chile e me sento na cadeira, uma voz do fundo diz «anda lá com isso pá». Como a pá é amiga da vassoura e como a vassoura não faz parte da minha ferramenta de trabalho, nem liguei. A porta de trás estava ainda aberta e se era só por uma paragem... Ajeito o volante, posiciono a cadeira, efectuo a rendição na consola e carrego no botão para fechar as portas e lá vinha de novo o «anda lá com isso pá» !
Na paragem seguinte o passageiro que estava tão apressado saiu, e logo me apercebi que o melhor foi mesmo nem responder porque parecia não regular muito bem, algo que já vai fazendo parte da colecção dos «cromos» que por vezes aparecem na 742 e que somos "obrigados" a aturar.
A chuva volta a cair ainda que timidamente, mas era suficiente para molhar alguns cérebros mais frágeis que á mínima pinga começam a disparatar, como o homem que entra na Praça Paiva Couçeiro e pergunta-me se passava por Santa Apolónia. Respondo-lhe negativamente, mas ainda assim, entra e senta-se. Com o cair da chuva miudinha, há que abrandar a marcha até porque o piso parece manteiga. Talvez por isso, a chapa da frente se atrasasse e é cortada.
Pedem-me da central que logo que possível, que avance. A chuva caía já com mais força e se alguns regressavam do trabalho, outros vinham do passeio e normalmente são estes que reclamam sempre o atraso do autocarro. Já perto de Santo Amaro, uma senhora com ar oriental entra com o seu chapéu de chuva que teimava em não fechar. Depois de algum esforço, lá se fecha e a senhora alça a perna em esforço porque a saia comprida não lhe oferecia mobilidade.Passa o título no validador e este dá "inválido". Solicita-me um bilhete e o chapéu volta-se a abrir já dentro do autocarro. Ela fecha-o ao mesmo tempo que procura naquela confusão que são, as malas das senhoras. O chapéu teima em abrir-se e lá lhe disse "veja lá se consegue fechar o chapéu e depois procura o dinheiro para o bilhete, antes que aleije alguém sem querer...", chateada com a minha atenção, respondeu-me agressivamente que «o meu chapéu não aleija ninguém, fique descansado. O que aleija muita gente é o que se vê há muitos anos...»
Percebeu o que a senhora quis dizer? Eu também não, mas foi o suficiente para a minha boca não se abrir mais. Vi logo que não valia a pena. Era só mais uma... Pagou o bilhete com 10 euros e fiz-lhe o troco. Quando me preparava para tirar do bolso a nota de 5 euros que faltava para concluir o troco, alerta-me que «dei-lhe 10 euros, senhor!», pois deu mas também ainda não me tinha ido embora.
Há dias em que o melhor é mesmo nem ligar porque é o tempo, é o stress, é a fadiga, é a falta de respeito e por vezes a falta de com quem desabafar. O motorista é portanto a pessoa indicada para estas pessoas descarregarem energias. Já no sábado tinha sido assim na 106. E estes são apenas mais alguns dos exemplos reais, (como todos os que até aqui têem sido relatados) que fazem por vezes, e como já tenho percebido pelos comentários de alguns colegas, que pensemos que "afinal não é só comigo que isto acontece".
Certo é também que esta é mesmo uma carreira que dava para mais um número da série de livros de «Uma aventura...», dadas as situações que diáriamente nela ocorrem. Seria sem dúvida mais um êxito para as escritoras Ana Maria Magalhães e a actual Ministra da educação Isabel Alçada. É por estas e por outras que a nossa profissão é diferente de todas!






